
“Eu aprendi que ser gentil é mais importante do que estar certo”
– Shakespeare
Fico pensando em como deve estar desgostoso o senhor José Datrino, lá do céu. Ele, que ficou famoso como Profeta Gentileza e foi o propagador da filosofia "gentileza gera gentileza" ,deve estar tendo dificuldade em encontrar os frutos das sementes que plantou. Porque, gente, reconheçamos, ser gentil está mais démodé do que usar pochette.
E eu, graças a Deus, estou por fora, pois acho gentileza o máximo. Não abro mão de desejar feliz aniversário a ninguém - e levo tão a sério que anoto numa agenda todas as datas de aniversário de todas as pessoas das minhas relações; faço o impossível para comparecer sempre que me convidam (e se não posso ir, nunca deixo de me justificar); não deixo ninguém esperando; não saio discordando só para causar polêmica; respeito os horários dos outros; não deixo ninguém mudar de planos por minha causa; sempre falo "bom dia", "boa tarde", "boa noite" e "muito obrigada" (faço questão do "muito"); só me recuso a fazer um favor para alguém se realmente não estiver ao meu alcance (e nesse caso eu tento indicar quem possa fazer); sempre retorno as ligações; sempre respondo aos e-mails; e jamais me dirijo a alguém adotando um tom autoritário. E aí você pode estar pensando: "vantagem nenhuma, você não faz mais que sua obrigação". Exatamente, eu também acho. Isso é o básico, o arroz com feijão que sustenta esse detalhe que faz toda a diferença para que tenhamos uma vida melhor: a gentileza. E o que me desespera é perceber que nem do arroz com feijão as pessoas estão dando conta. As pessoas querem estar certas, querem mostrar o quanto são poderosas, o quanto são inteligentes. As pessoas querem cumprir metas, mostrar o quanto são competentes, o quanto são esforçadas. As pessoas querem ficar ricas, mostrar o quanto são espertas, o quanto são melhores que os outros. E quanto a ser gentil? As pessoas não se preocupam com isso ou, sendo otimista, se esqueceram desse detalhe - nem foi por mal - devido à falta de tempo.
E quando falo "as pessoas", me incluo também já que, embora eu faça meu arroz com feijão, vivo mordendo a isca dos sem-educação e grosseiros de todos os tipos. Não raramente me vejo gastando energia num embate com alguém que tenha me tratado sem o mínimo de gentileza. O que ganho com isso? Nada. Apenas a frustração por não ter conseguido ser gentil, mesmo com aquela pessoa que não merecia. Porque o que eu entendo é que a gentileza que gera gentileza é aquela indiscriminada. É ser gentil sem olhar a quem. Do resto, a vida se encarrega.
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