sábado, 17 de abril de 2010

Quando eu era pequena

Quando eu era pequena, gostava de descobrir coisas tolas do mundo.

Passava séculos olhando o relógio digital, esperando pelo pequeno instante em que o número do minuto iria mudar, para ver como se dava a mágica. Ficava ali, os olhos abertos, concentrada na frente do relógio e, estranhamente, no raro instante em que eu piscava, pronto, o número mudava e eu perdia o grande acontecimento.

Quando eu era pequena e acordava no escuro, sentia muito medo e aflição, porque pensava que poderia ter ficado cega. Quando eu era pequena e acordava no escuro, tratava de procurar uma luzinha qualquer, uma sombra, uma imagem que me mostrasse que minha visão ainda funcionava e... não, eu não estava cega. Em compensação, quando eu era pequena e dormia com alguma iluminação, dessas bem fraquinhas que confundem a gente, os móveis e a desorganização do quarto sempre formavam monstros na minha imaginação.

Quando eu era pequena, deitava no banco de trás do carro e meu corpo não alcançava a outra janela.

Quando eu era pequena, brincava de escolinha, sentava todas as minhas bonecas em uma fila, colava papel sulfite no armário à frente delas e, lá, fazia a minha lousa. Eu era a professora aplicada, a líder exigente, a dona da sala e da situação.

Quando eu era pequena, gostava de tirar casquinha dos meus machucados, gostava de desenho na TV, odiava comercial e salada, mas adorava o gosto doce do nescau, no fundo do copo de toddy.

Quando eu era pequena, dançava na frente do espelho, chorava na frente do espelho, fazia poses ridículas na frente do espelho, como se meu mundo fosse aquele, minha própria imagem refletiva diante de mim.

Eu estava me conhecendo, descobrindo minhas facetas, minhas lágrimas e meus risos. Eu estava tentando descobrir quem era e, hoje, olhando para trás, noto que nunca consegui. A não ser quando não sabia, e fazia xixi de tanto rir por qualquer tolice. Quando eu era pequena.

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